'É uma mina no quintal': terras raras dividem opinião de moradores no Sul de MG

  • 17/05/2026
(Foto: Reprodução)
Moradores de Poços de Caldas temem impacto de mina que fica a 300 metros de casas Apenas um morro separa o Conjunto Habitacional Pedro Afonso Junqueira, em Poços de Caldas (MG), da área onde uma mineradora australiana pretende instalar uma mina de terras raras de 373 hectares. Em alguns pontos, as escavações previstas ficarão a 300 metros de casas, escolas e hospitais. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram O projeto ainda está em fase de licenciamento. Atualmente, a empresa realiza perfurações de sondagem que retiram amostras de solo para quantificar o volume de minério disponível. A área ainda está em posse dos proprietários originais e em uso para a agricultura, pecuária e extração de madeira. 🔎 Terras raras são minerais estratégicos usados em tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos de defesa. Neste contexto, o Planalto de Poços de Caldas (MG) tem se consolidado como uma das áreas mais promissoras do Brasil para a exploração de terras raras por ter os minérios em argila na superfície e em alta concentração. Isso permite uma extração sem necessidade de grandes escavações. O Brasil ocupa uma posição estratégica na disputa global por terras raras: tem a segunda maior reserva do mundo, mas ainda participa pouco da produção e das etapas de maior valor agregado desses minerais, usados em tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. O g1 foi até o bairro vizinho à área onde será instalada uma mina de terras raras e entrevistou moradores e representantes locais para entender como eles estão lidando com a proximidade das áreas de exploração. “Mineração não é brinquedo, é um risco de vida para muitos. A gente não sabe o que pode acontecer. Me dá um desespero tão grande. Tem minha neta que mora aqui do lado. A gente talvez não viva mais tempo, já estou idosa, mas a nova geração, que futuro vai ter? Ver aqueles buracos que tornam um lugar tão triste, tão feio. É aterrorizante", diz a cozinheira aposentada Dirce Elena da Silva Alves, de 61 anos. INFOGRÁFICO: projeto de terras raras avança sobre bairros em Poços de Caldas, no Sul de MG Arte/g1 Mina de terras raras na porta de casa A casa de dona Dirce dá de frente para o morro que faz limite com a futura mina. Ela chegou ao conjunto habitacional há 44 anos, junto com os primeiros habitantes, e agora teme perder tudo o que foi conquistado. “A gente passou por tanta coisa. Não tinha asfalto, era tudo barro. Quando chovia, a gente punha sacolinhas nos pés para poder andar no barro. Banheiro era fossa porque não tinha rede de esgoto. Não tinha um ônibus. Tudo isso nós passamos e vencemos. Agora, a gente fica com medo de perder o que conseguiu.” Ela tem toda a sua rotina no bairro. Faz tratamento para as costas na policlínica localizada poucas ruas acima de sua casa. Próximo dali também há um hospital, uma creche e escolas. Ao ver os planos da mina, ela chorou porque tem receio de que a tranquilidade da comunidade desapareça. Atrás do morro que dona Dirce vê todos os dias, o projeto Colossus, da mineradora australiana Viridis, vai ocupar uma área equivalente a 533 campos de futebol. O empreendimento fica ao lado de 14 bairros que abrigam 60 mil pessoas na Zona Sul de Poços de Caldas. A previsão é iniciar a mineração em 2028. Quando estiver totalmente implantada, deve movimentar 5 milhões de toneladas de argila e produzir 15 mil toneladas de carbonato de terras raras por ano em uma expectativa de 40 anos de atividade no local. Poucas casas depois da residência de dona Dirce, mora Silvia Helena, que foi surpreendida com a notícia da chegada da mineração após quase 30 anos morando no bairro. “Nós nunca imaginamos, foi uma surpresa.” O principal receio da dona de casa é pela saúde da filha e do neto, que têm problemas respiratórios, e com a estrutura da sua casa. “Isso vai prejudicar o bairro, vai acabar com a natureza, poluir o ar. Eles vão escavar fundo na terra, e se isso afetar a respiração e abalar as casas?”, questiona. Silvia Helena teme que mina de terras raras prejudique a saúde de sua família e a estrutura da sua casa Fabiana Assis/g1 Preocupação com os estudos de impactos da mina A rua de dona Dirce e da Silvia é uma das vias de acesso à área onde serão feitas as escavações. Também é muito utilizada por quem busca se abastecer de água mineral em uma mina que beneficia a população dos bairros próximos, uma vantagem para quem mora em uma área com muitas nascentes. E são justamente essas nascentes e o abastecimento de água para a região as maiores preocupações dos moradores. De acordo com a organização Terra Viva, Água Rara, a região da mineração é um importante repositório de águas, com 93 nascentes, das quais três deverão ser extintas. Há ainda duas que poderão ser comprometidas, uma severamente ameaçada e uma vulnerável a impactos minerários. A empresa responsável admite que três nascentes serão afetadas, mas não fala em extinção. Há ainda a apreensão com uma possível contaminação do lençol freático pela amônia que será utilizada no processo de tratamento da argila retirada do solo para a separação dos elementos terras raras. A organização diz sentir falta de estudos independentes e acha que é preciso mais tempo para determinar os impactos ambientais e sociais antes da instalação da mineração. "Mesmo que a empresa apresente um estudo dela, a gente precisava de outro para confrontar. Um estudo independente pode, inclusive, contribuir para a empresa fazer o seu trabalho de maneira mais adequada. Sem isso, a gente fica na mão de uma única perspectiva", afirma a advogada Jovana Moster, membro da Terra Viva. Amostra de argila com compostos de terras raras retiradas na caldeira vulcânica de Poços de Caldas, MG Viridis/Divulgação LEIA TAMBÉM: Grupo australiano conclui compra de projeto de terras raras no Sul de Minas por R$ 80 milhões Terras raras: Brasil dá passo inédito para produzir ímãs com minério nacional Brasil inaugura 1º laboratório de extração de terras raras MG terá o primeiro centro de reciclagem de ímãs de terras raras do Hemisfério Sul Corrida por terras raras: descoberta de jazida em MG atrai mais de 100 pedidos de mineração Cratera de vulcão em MG pode suprir 20% da demanda global por terras raras, minerais estratégicos cobiçados pelos EUA A funcionária pública Milca Aparecida Albino Silva diz que também gostaria de ter acesso a mais estudos sobre os impactos da mineração de terras raras na vizinhança do seu bairro, na cidade e em toda a região. "A mineração de terras raras é um universo totalmente novo que poucos conhecem, e a sensação que eu tive é que a cidade está acelerando o processo sem estudar os impactos que isso terá, não somente para a Zona Sul, mas para todo Planalto de Poços de Caldas." Quando soube da instalação da mina, em 2024, ela passou a participar de audiências públicas e encontros promovidos pela mineradora Viridis. “Até então, eu não conhecia e não tinha ideia da amplitude. Quando eu vi o mapa da região que vai ser minerada, eu fiquei muito preocupada porque é gigantesco", diz. O g1 entrou em contato com o Ministério Público do Estado para saber sobre o andamento dos pedidos de novos estudos e questionamentos ao licenciamento para a mineração, mas não tinha recebido resposta até a publicação desta reportagem. Mina de água mineral fica em última rua de bairro que faz vizinhança com área onde será instalada mina de terras raras em Poços de Caldas Fabiana Assis/g1 Expectativa de desenvolvimento divide moradores Por outro lado, há moradores que entendem a chegada da mineração em seu território como uma oportunidade de desenvolvimento para a região. A terapeuta Patrícia Chagas tinha dúvidas sobre os riscos da mineração, mas mudou de ideia sobre os impactos para o conjunto habitacional onde mora há 44 anos. “No início, eu me senti assustada, me senti temerosa a respeito de vários aspectos e me posicionei. Mas tive acesso ao que a mineradora estava fazendo, todo o planejamento. Eles estão agindo, a meu ver, seguindo as regras, seguindo as legislações. Eles não vão atuar se essas legislações não permitirem”, diz. O educador físico Leonardo Rodrigues de Souza engrossa o coro da expectativa de que a comunidade pode ser beneficiada. "Qualquer atividade que tenha conotação extrativista é vista como algo prejudicial, mas também vejo como oportunidade de desenvolvimento. Deve ser levado em conta o quanto ficará de benefício para a região: será somente extração e exportação de commodity ou iremos desenvolver tecnologia para que realmente possamos usufruir o máximo dessa atividade. Outro ponto muito importante seriam as contrapartidas da própria mineradora para ações sociais da cidade", afirma. Laboratório de extração de terras raras em Poços de Caldas Meteoric/Divulgação Empresa diz que haverá mitigação dos impactos No quarto trimestre de 2025, a mineradora anunciou R$ 132,5 milhões em investimentos no Planalto de Poços de Caldas: 🪨 R$ 80 milhões na aquisição de mais uma área de exploração por um terceiro grupo australiano. A empresa prevê um investimento de R$ 1,6 bilhão na instalação da mina; ♻️ R$ 51 milhões no projeto de montagem do primeiro laboratório de reciclagem de superímãs do hemisfério Sul; 🔬 R$ 1,5 milhão na instalação de um laboratório de extração de terras raras. Além disso, a Viridis deve investir até o início do funcionamento da mina cerca de R$ 1,7 bilhão. Parte deste valor será gasto em pesquisa, levantamentos de campo e estudos dos impactos e medidas para a sua mitigação. A empresa afirma que diversos estudos ambientais sobre o projeto Colossus foram entregues à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) durante o licenciamento ambiental. O levantamento durou um ano e custou em torno de R$ 3 milhões. Foram feitas simulações de dispersão de poeira e, com as medidas de controle previstas, como umidificação das vias e controle de velocidade dos caminhões, os níveis ficaram abaixo do limite de proteção à saúde. Além disso, a área será cercada por árvores, formando uma barreira física à poeira, ao som e à visibilidade das cavas (escavações feitas para retirada da argila que contém terras raras). Durante os levantamentos, a Viridis diz que mapeou 98 nascentes da área onde irá desenvolver as suas escavações. Segundo a empresa, nenhuma será extinta, mas três terão seus cursos alterados. Ao longo do processo, as nascentes serão monitoradas com acompanhamento dos órgãos ambientais. Além disso, a Viridis só pode usar a água após autorização do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). "Empreendimento sempre vai ter um impacto, então a gente tem que mitigar para que ele se torne plenamente aceitável e controlado com o tempo. O dinheiro que a gente recebe do exterior pela nossa matriz australiana e pelos bancos tem uma exigência ambiental muito grande. Eles querem a rastreabilidade do produto e temos que provar que aplicamos as melhores práticas, o que é bom para todo mundo", afirma o gerente da operação brasileira da Viridis, Klaus Petersen. O secretário de Meio Ambiente, Stefano Zincone, disse que o licenciamento ambiental é de competência do Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), mas que o município acompanha de perto todas as etapas do processo de instalação da mina. “A Prefeitura está atenta aos riscos e impactos ambientais que a atividade mineral pode causar a nossa região. Cabe ao Estado definir medidas mitigatórias e compensatórias, mas estamos mantendo diálogo constante com os órgãos responsáveis para garantir que as demandas de Poços sejam contempladas”, afirmou. O g1 entrou em contato com o governo do Estado, mas não tinha recebido resposta até a última atualização desta reportagem. A Câmara Municipal também acompanha o empreendimento por meio de uma comissão especial estabelecida para analisar documentos para subsidiar estudos e a instalação do projeto. A primeira reunião foi realizada em março deste ano. Os moradores torcem por estas boas práticas e pelo desenvolvimento da região, mas ainda esperam provas para que tenham tranquilidade em relação ao futuro ao lado do progresso que quer se tornar seu vizinho. "Eles querem colocar uma mina no quintal da comunidade. Por mais que hoje todo mundo esteja de olho nas terras raras, não vale a pena negociar o futuro da cidade sem saber como vamos ficar depois. Nós não podemos servir de experimento para empresas virem aqui testar e ver o que é que dá certo. Quando eles forem embora, quem vai ficar com o abacaxi é a população", diz a funcionária pública Milca Aparecida. Terras raras: tipos e usos Arte/g1 Mineradora faz perfuração de sondagem em área de futura mina de terras raras em Poços de Caldas, MG Viridis/Divulgação Terras raras gif Reprodução Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2026/05/17/e-uma-mina-no-quintal-terras-raras-dividem-opiniao-de-moradores-no-sul-de-mg.ghtml


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