Do Vale do Jequitinhonha para o mundo: Selo reconhece origem, tradição e qualidade do café da Chapada de Minas
06/06/2026
(Foto: Reprodução) Café da Chapada de Minas se destaca pela qualidade e conquista consumidores no Brasil e no exterior
Café Aranãs e Varietal/Arquivo pessoal
Transformando desafios em possibilidades ao longo de décadas, produtores rurais estão consolidando a Chapada de Minas como uma importante região produtora de café de qualidade. Agora, o produto que sai dessas lavouras no Vale do Jequitinhonha tem sua origem, autenticidade e tradição reconhecidas por meio do selo de Indicação Geográfica (IG).
☝️Concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o selo atesta a reputação, o valor e a identidade de produtos de um determinado local. A certificação é um reconhecimento de que esses produtos têm qualidade única devido a uma combinação de fatores naturais e humanos.
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Localizada no coração do Vale do Jequitinhonha , a Chapada de Minas evidencia que a perseverança, a resiliência e a dedicação dos produtores rurais com a lida na terra se converteram em riqueza e prosperidade, contrastando com o estigma da vulnerabilidade social e escassez hídrica atrelados à região.
📍A Chapada de Minas abrange os seguintes municípios: Água Boa, Angelândia, Aricanduva, Capelinha, Caraí, Carbonita, Catuji, Diamantina, Felício dos Santos, Franciscópolis, Itaipé, Itamarandiba, José Gonçalves de Minas, Ladainha, Leme do Prado, Malacacheta, Minas Novas, Novo Cruzeiro, Senador Modestino Gonçalves, Setubinha, Turmalina e Veredinha.
A combinação do trabalho feito ao longo dos anos com o solo, a altitude e clima permite a produção de uma bebida de alta qualidade com as seguintes características:
☕Sabor: doce, achocolatado, caramelo com notas de frutas vermelhas
☕Aroma: intenso, amanteigado, com frutas vermelhas
☕Corpo: intenso e aveludado
☕Acidez: málica de média a alta
☕Finalização: equilibrada e prolongada
A qualidade dos cafés produzidos na Chapada de Minas está sendo comprovada ainda com a conquista de notas acima de 80 pontos na metodologia da Specialty Coffee Association (SCA), que vai até 100.
Para a avaliação, são considerados critérios como aroma, uniformidade, ausência de defeitos, doçura, harmonia, entre outros. Em um patamar diferenciado, a bebida pode ser vendida a um preço superior, atendendo aos consumidores e mercados mais exigentes em todo o mundo.
Em 2022, foi realizada a primeira exportação direta de café especial para a Austrália e os produtores da região seguem conquistando prêmios nacionais e internacionais.
Abaixo, estão alguns números relacionados à cafeicultura na região da Chapada, que possui uma população estimada em 362 mil pessoas:
🍃5,8 mil produtores
🍃400 mil sacas de café produzidas anualmente
🍃30 mil hectares plantados
🍃20 mil empregos gerados
Lavouras de café geram 20 mil empregos na região
Sebrae
Busca pelo selo de IG
A solicitação do selo de IG segue algumas etapas e, no contexto da Chapada de Minas, a criação do Instituto do Café da Chapada de Minas (ICCM), em 2018, foi um passo essencial para o registro. No ano seguinte, foi lançada a marca território “Chapada de Minas”, reforçando a procedência e a qualidade dos cafés produzidos.
O ICCM - organização sem fins lucrativos - foi criado com o intuito de impulsionar o desenvolvimento da cafeicultura na região por meio de três pilares principais, educar, inspirar e colaborar. O Sebrae atua junto com a entidade desde o início com os objetivos de profissionalizar a gestão, aprimorar o modelo de produção e fortalecer a governança. A conquista da IG é fruto dessa pareceria.
"A conquista da Indicação Geográfica representa um reconhecimento justo ao trabalho e ao empenho diário dos produtores, que se dedicam continuamente a elevar os padrões de qualidade do café da região”, afirmou o presidente do conselho deliberativo do Sebrae Minas, Marcelo de Souza e Silva.
Desde o início dos trabalhos, foram adotadas iniciativas para o desenvolvimento técnico e gerencial dos produtores, com treinamentos, capacitações, visitas técnicas a feiras e eventos do setor. Foram promovidos ainda Dias de Campo, que são imersões em propriedades consideradas modelos de boas práticas.
“Além do impacto econômico, os cafés da Chapada de Minas ajudam a consolidar a identidade regional, o desenvolvimento da produção e do comércio, o reconhecimento de mercado e a competitividade para os diversos produtores no cenário nacional e internacional", completou Marcelo de Souza e Silva.
A reportagem abaixo foi feita pela Inter TV e mostra a força da bebida produzida na Chapada de Minas:
Reportagem mostra a força do café da Chapada de Minas
Nada vence o trabalho!
A produtora rural Carmen Lydia Meirelles foi a primeira presidente do ICCMG. Por oito anos, ela esteve no cargo. Para ela, a criação da entidade foi importante para unir a classe, que segue lutando por objetivos em comum. Nos últimos 20 dias de sua gestão, o selo de IG foi concedido.
"Essa conquista é resultado de um trabalho árduo, construído com dedicação e perseverança ao longo dos anos. Destacamos, de forma especial, o papel fundamental do Sebrae como grande parceiro dos produtores da região, oferecendo suporte técnico, orientação e confiança em nosso potencial. A atuação conjunta com o ICCM foi decisiva para alcançarmos esse marco histórico.”
Carmen Lydia faz parte da terceira geração de uma família de cafeicultores
Café Aranãs e Varietal/Arquivo pessoal
Recentemente, Carmen Lydia esteve no Canadá para uma rodada de negócios, e algumas das exigências feitas foram justamente as certificações e o pertencimento a uma região reconhecida.
"Ser produtora em uma região com Indicação Geográfica reconhecida é importante devido à credibilidade que isso traz. Mostrar ao mundo que temos uma identidade, que somos organizados e temos nossas características únicas atrai a curiosidade e a vontade de conhecer nosso café, nosso produtor, nossa região."
Carmen Lydia faz parte da terceira geração da família que trabalha com o café.
"Os cafés produzidos por nós vêm, sim, conquistando muito interesse no mercado, fruto de muito trabalho e dedicação também. Todo trabalho, quando é reconhecido, traz para a gente uma satisfação e um conforto muito grandes. Nada vence o trabalho!"
O trabalho realizado pelos produtores da Chapada convergem com dados do Governo de Minas Gerais sobre um cenário promissor para a safra de café deste ano, com a expectativa de que sejam colhidas 32,4 milhões de sacas, um aumento de 25,9% em relação a 2025. O estado é o maior produtor do país.
"Acreditamos no café, amamos o café e vamos, cada vez mais, melhorar a qualidade e a produtividade."
Amor e dedicação em cada xícara de café
Cláudio Nakamura chegou na Chapada de Minas há 40 anos
Sebrae
Descendente de imigrantes japoneses, Cláudio Nakamura e a esposa, Élvia Nakamura, chegaram à região em 1986. A família dele já cultivava café no Paraná, mas foi para outros locais após uma geada devastadora em 1975. Foi com o trabalho na Chapada de Minas que o casal conseguiu sustentar os quatro filhos.
"É com muita satisfação e alegria que vejo o nome da Chapada de Minas seguindo junto com esses cafés especiais maravilhosos e diferenciados, apreciados pelos brasileiros e pelo mundo afora."
Com o otimismo de quem enfrentou todos os tipos de desafios ao longo de 40 anos à frente da própria fazenda, Cláudio e Élvia decidiram buscar novas oportunidades. Para isso, recorreram ao apoio de instituições como Emater, Senar e Sebrae, o que permitiu com que elevassem o nível de profissionalização do negócio, que agora conta com uma torrefação própria e comercializa três tipos de café: dark roast, blend e fermentado.
Apesar das mudanças que ocorreram, o cafeicultor continua trabalhando com o mesmo desejo de sempre: levar café de qualidade ao maior número de pessoas. Ele acredita que cada xícara que chega ao consumidor carrega o trabalho, a dedicação e o amor de quem produz o café.
"Até pouco tempo, os melhores cafés brasileiros eram apreciados somente pelos estrangeiros, mas eu gostaria que os brasileiros também pudessem ter acesso com facilidade e que valorizassem os nossos cafés, produzidos com toda a atenção para oferecer o melhor aos nossos consumidores."
Depois de um tempo morando no Japão e, por conta da demanda crescente de trabalho na fazenda, que tem 62 hectares de café plantados, um dos quatro filhos de Cláudio e Élvia, Éder, voltou para trabalhar com os pais.
"É uma honra trabalhar com meu pai e dar continuidade a esse trabalho que ele vem desenvolvendo na Chapada de Minas. É uma empresa que gera empregos e renda para a nossa região, além de trazer visibilidade pela qualidade do nosso produto. Tenho certeza também de que ele está feliz por ver que seu esforço ainda trará muitos frutos para seus filhos, netos, colaboradores e a comunidade em geral."
A expectativa de Éder é que o selo de IG possa trazer novas oportunidades de negócios.
"Com o reconhecimento da nossa IG esperamos alcançar novos mercados, melhorar o preço de venda dos nossos cafés e, consequentemente, incentivar e aumentar a quantidade de produtores da nossa região que investem em cafés especiais."
Trocou égua por mudas de café
Donizete Santiago em sua lavoura de café
Arquivo pessoal
A maior parte das propriedades da Chapada de Minas é dedicada à agricultura familiar. É o caso de Donizete Santiago, que trabalha ao lado da esposa, Lucimar Aparecida Domingos Silva, em Angelândia. No sítio da família, nove hectares são destinados ao cultivo de café.
Antes da cafeicultura, o pai de Donizete produzia milho, feijão e mandioca.
“Depois de alguns anos do início do plantio de café na região, conseguimos convencer meu pai a plantar um pouco. Como ele não tinha dinheiro para investir, vendeu uma potra e conseguimos comprar as primeiras mudas, mas continuamos com as outras lavouras”, contou.
Donizete é o mais novo de 14 filhos e trabalha no campo desde os sete anos. “Nunca saí daqui, sempre morei aqui”, disse com orgulho.
Sem conhecimento técnico, a família cultivava o café da maneira que era possível. Com o passar dos anos e diante das dificuldades, Donizete decidiu investir na profissionalização da produção.
“Antes, tudo era na base da força bruta. Hoje contamos com tecnologia e sabemos que podemos escolher caminhos para produzir mais e melhor. Mesmo com 52 anos, procuro sempre me especializar. No café, aprendemos algo novo todos os dias. A cada visita, viagem ou dia de campo, vejo o que posso melhorar na propriedade.”
O produtor também destaca a importância da união entre os cafeicultores, por meio da criação do ICCM, para dar visibilidade à produção local.
“O ICCM ajudou a levar o nome do Vale do Jequitinhonha para o Brasil e para o mundo, trazendo reconhecimento para as riquezas da região.”
Em 2022, o ICCM inaugurou em sua sede, em Capelinha, o primeiro laboratório de provas de café da Chapada de Minas. O espaço avalia amostras e disponibiliza um documento com informações detalhadas sobre o produto.
“Eu envio uma amostra e o ICCM me fornece um laudo. Antes, eu não sabia qual era a qualidade do meu produto. Hoje, sei exatamente o que estou vendendo e quanto posso ganhar.”
A recente conquista do selo de Indicação Geográfica (IG) representa, para Donizete, mais um passo para realizar um sonho: "No futuro, minha vontade é trabalhar aqui com minha esposa e nossas duas filhas. Queria que todos pudéssemos tirar o sustento daqui."
“Agora, com o selo de IG, nosso café passa a ter origem certificada. Antes, ele saía daqui e era vendido como produto de outras regiões. Com esse registro, será reconhecido em qualquer lugar do mundo pela qualidade e pela forma como é produzido.”
O pai de Donizete, já falecido, não chegou a presenciar as mudanças recentes na Chapada de Minas, mas segue sendo uma referência para o produtor.
“Meu pai ficaria muito satisfeito com tudo que temos vivido hoje. Agora, na época da colheita, penso muito nele. Mesmo sem o conhecimento técnico que temos hoje, ele sempre dizia que a gente precisava melhorar.”
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